Empresas não estão apenas em busca de profissionais com experiência — estão em busca de repertório
Por Erika Buzo Martins, coordenadora do curso de Administração da ESPM-SP
Quando falamos sobre carreira, existe uma narrativa que se repete quase como um consenso: primeiro forma-se, depois ganha-se experiência, e só então se está pronto para assumir posições mais estratégicas. Mas, na prática, essa linearidade já não responde à complexidade do mercado atual.
Empresas não estão apenas em busca de profissionais com experiência — estão em busca de repertório. E repertório não se constrói exclusivamente com tempo de mercado, mas com a capacidade de interpretar contextos, tomar decisões e lidar com ambiguidade.
É justamente nesse ponto que surge uma discussão pouco aprofundada: o que, de fato, configura experiência?
Existe uma diferença relevante entre acumular vivências e desenvolver leitura crítica sobre elas. A experiência, isoladamente, não garante sofisticação analítica. O que transforma vivência em competência é o processo de reflexão, conexão e tomada de decisão.
Por isso, cresce — ainda que de forma desigual — um movimento educacional que busca antecipar o contato com o mercado, não como uma simulação superficial, mas como parte estruturante da formação. Trazer problemas reais, empresas reais e desafios que exigem posicionamento do estudante não substitui a experiência profissional, mas muda completamente a qualidade com que ele chega até ela.
Nesse modelo, o estudante deixa de ser um observador e passa a atuar como agente — ainda em ambiente protegido, mas com exigência real de raciocínio, argumentação e entrega. E talvez aqui esteja uma das viradas mais relevantes: a compreensão de que a formação não precisa esperar o mercado para começar a acontecer.
Ao mesmo tempo, existe um outro fator que merece atenção — e que frequentemente é subestimado —: a maturidade. Não necessariamente a maturidade etária isolada, mas a capacidade de reflexão sobre o que se vive.
Estudantes mais maduros, independentemente de já estarem inseridos no mercado, tendem a extrair mais valor das experiências às quais são expostos. Questionam mais, conectam melhor e constroem repertório de forma mais consistente.
No fim, a diferença não está apenas em “ter feito”, mas em como se aprende com aquilo que se faz.