“Você não vai estudar publicidade apenas porque quer fazer uma campanha”, diz Denise Millan
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“Você não vai estudar publicidade apenas porque quer fazer uma campanha”, diz Denise Millan

Publicitária que venceu o Caboré de atendimento em 2017 será uma das palestrantes do Supernova 2019. Em entrevista, ela fala sobre a nova fase de sua carreira, o ecossistema de startups e dá dicas aos estudantes

“Na minha época, ou você trabalhava em agência ou era o cliente. Hoje o mundo tem milhões de possibilidades”. A afirmação é de Denise Millan, 54, publicitária com 20 anos de experiência que deixou a carreira de atendimento em uma grande agência de publicidade para estudar neurociência e atuar como business líder e estrategista. 

Em entrevista para a ESPM, ela fala sobre a nova fase de sua carreira, o ecossistema de startups no Brasil e os desafios para pequenas, médias e grandes empresas inovarem. “A inovação é algo que os gestores deveriam olhar com mais atenção, deveria estar incorporado dentro do seu propósito”, afirma Millan.

De quebra, a publicitária – que será uma das palestrantes do Supernova 2019, Summit de Comunicação da ESPM – dá dicas aos estudantes que estão dando os primeiros passos na carreira. “Olhe bem lá na frente e acompanhe muito o que as estatísticas e as tendências sobre o futuro estão dizendo”.

A inovação é algo que os gestores deveriam olhar com mais atenção, deveria estar incorporado dentro do seu propósito

Denise Millan

O que mudou no mercado publicitário desde que você iniciou a carreira? Como você se adaptou a essas mudanças ao longo de mais de 20 anos de trabalho?

O que mudou essencialmente é que o mundo ficou muito mais competitivo. Além disso, tivemos a chegada do digital, que acho que foi a maior mudança. Em relação à adaptação, acho que não é uma questão apenas da propaganda. Todos precisam se manter atualizados, estudando e sempre em contato com novos assuntos, novas pessoas. Hoje o mundo dá muito mais oportunidade para isso. Não tem mais desculpa, você tem as ferramentas disponíveis e tem que ir atrás. Não pode ficar esperando algo da empresa ou do mercado. É algo individual. As pessoas têm que ir atrás do seu conhecimento, buscar coisas novas que agreguem valor para o negócio em que atuam. 


Estamos vivendo a era dos dados e dos algoritmos. Em sua opinião, quais são as tendências do mercado publicitário neste momento?

Eu não sei se tem tendências. Acho que o dado sempre existiu, desde lá de trás existiam informações e dados. A grande questão é o que você faz com os dados. A parte analítica dos dados é muito importante e você também precisa saber os objetivos do seu cliente ou do seu negócio. Acho que essa é a chave de tudo. Os dados estão aí cada vez mais aprimorados, acessíveis e em quantidade imensa. A questão é quem está fazendo a análise melhor. Algumas empresas fazem, outras estão começando, outras estão no caminho. Faz parte do processo.


E como estão as agências de publicidade nesse cenário?

As agências estão tentando acompanhar o processo, mas o modelo de negócio delas impede que invistam mais em dados. O negócio de agência de propaganda está muito mais baseado na ideia e na comunicação. Na verdade, elas trabalham mais com os dados dos próprios clientes. Os grandes grupos até investiram muito nos últimos tempos em data science, mas o mundo está mais veloz que os grandes grupos.


O que mudou na sua carreira depois que você recebeu o Caboré?

O prêmio foi algo inesperado. Não esperava nem a indicação, muito menos ganhar. Foi o fechamento de um ciclo. O Caboré para mim foi a coroa desse tempo dedicado ao atendimento no meio da propaganda. Foi um bom momento para terminar um ciclo e começar um novo.


Desde então você tem tocado um projeto de consultoria e mentoria chamado getagoat? O que exatamente você faz? 

Existem muitas empresas que não são necessariamente grandes marcas, mas têm necessidade de se tornar mais competitivas e têm muito potencial para isso. O getagoat é uma oportunidade de trazer estratégias de negócios para essas empresas. Além disso, muitos novos empreendedores também precisam de ajuda. Quem empreende hoje pode ter uma grande ideia, mas não necessariamente tem a experiência para colocar um negócio no mercado. Como sempre trabalhei com atendimento ao cliente, meu foco sempre foi estratégia de negócio e posso ajudar essas empresas desse modo. 


E quais são os desafios de inovação nessas empresas?

A inovação não é simplesmente uma teoria, não basta simplesmente dizer que quer mais inovação. É algo que depende muito de mindset [mentalidade] e dessa abertura para o novo, que é mais difícil dentro das organizações tradicionais porque elas são mais processuais e hierárquicas. Essas empresas têm outras metas a serem cumpridas, o que torna um pouco mais difícil inovar. A inovação é algo que os gestores deveriam olhar com mais atenção, deveria estar incorporado dentro do seu propósito. Para as empresas mais novas, sem dúvida é muito mais fácil estabelecer novas formas de trabalho, que é o realmente vai mandar no mercado. Nessas organizações é muito menos hierárquico e mais colaborativo, isso resulta em mais inovação. 


Quais foram os erros mais comuns que você identificou nas empresas e nos empreendedores?

O erro mais comum é a utopia do negócio. As pessoas ainda estão muito fechadas nelas mesmas, nos segmentos em que atuam, conversando com os mesmos indivíduos de sempre. Você tem que aprender a conversar com outras pessoas, que vão lhe apresentar para outras pessoas. É isso que vai fazer o seu negócio rico. E tudo bem mudar de ideia no caminho.


Além do getagoat, ao que mais você tem se dedicado?

Saí da Leo Burnett [em setembro de 2018] para fazer neurociência na ESPM porque queria entender mais sobre o comportamento humano. Fiquei muito surpreendida com a área porque traz algo novo que pode ser muito bem explorado na comunicação. Além disso, tenho me envolvido com startups do Brasil e do exterior. Mesmo com crises políticas e econômicas, tem muita startup de fora querendo entrar no mercado brasileiro. Essas empresas procuram pessoas que entendam do negócio, que tenham experiência para fazer conexões com pessoas dentro do nosso mercado. Isso é algo que eu tenho feito muito e tenho apreendido muito. Tem muita coisa acontecendo em novas empresas e novos segmentos que estão querendo entrar no Brasil ou que já estão aqui e a gente desconhece completamente.


Você pode citar exemplos desses “novos segmentos”?

Inteligência artificial e venture capital, por exemplo. São muitas empresas de tecnologia que pensam em escala, negócios que democratizam e resolvem os problemas de muita gente. Não é fácil empreender no Brasil, mas é um mercado potencial. 


Que dica você daria para um estudante que está entrando agora na faculdade, especialmente no curso de publicidade e propaganda?

Eu diria para ele não depender apenas da universidade para decidir o que quer fazer. Acho que a publicidade tem hoje um campo muito maior que ainda nem está sendo explorado. Olhe bem lá na frente e acompanhe muito o que as estatísticas e as tendências sobre o futuro estão dizendo. Recomendo que acompanhem esses futuristas sérios, como o The Milenium Project. Vivemos em uma época em que todos estão buscando um propósito. Você não vai estudar publicidade apenas porque quer fazer uma campanha. Vai fazer publicidade e propaganda porque você de alguma forma quer inteferir no mundo, nas pessoas, nas marcas, nos negócios. Então, tem que acompanhar o que está acontecendo. Existem muitas profissões novas e ligadas ao humano que serão extremamente valorizadas. Oportunidades não faltarão. Na minha época, ou você trabalhava em agência ou era o cliente. Hoje o mundo tem milhões de possibilidades. 


O tema do painel que você participará no Supernova é: “Algoritmos Leem Felicidade?”. De que maneira você pretende contribuir com essa discussão?

Usando minha experiência de neurociência relacionando com algoritmos talvez eu possa ajudar a desmistificar o bicho papão do algoritmo.